domingo, 26 de setembro de 2010

Filosofia de Perrengue

Temos no dicionário da língua portuguesa Aurélio o vocábulo:

Perrengue: adj. e s.m. e s.f. Bras. Desalentado, alquebrado, fraco. / Adoentado; sem forças. / Imprestável. / Covarde, medroso. / Que tem manqueira crônica; capenga.

Só forçando a barra para ajustar o que o dicionário diz ao sentido que nós PerrengueMans queremos dar. Definitivamente não somos capengas e covardes, pelo contrário Perrengue é palavra que suscita a coragem.

No mundo da aventura, bem sabemos que perrengue é aquela situação difícil, aquele imprevisto que lhe inspira no momento as palavras "mais nobres", mas que chocariam seus avôs. Alvos para essas palavras não faltam. Você tem toda uma gama de equipamentos, companhias e, elementos climáticos e naturais para "exaltar", ou sem ironias xingar, nestes momentos. Talvez aí a definição do Aurélio se ajuste. Essas situações são realmente desalentadoras.

Mas essa seria a perspectiva do momento. O perrengue nos leva a situações de superação e é de perrengue que as melhores histórias são feitas. Diria mais, uma aventura só é aventura quando nela esteja contida um perrengue. E nisto o dicionário me apóia, pois aventura é uma situação imprevista ou um empreendimento ousado (lê-se: muita chance de perrengue). Assim as melhores histórias de aventuras (e de comédia) são feitas de perrengues. E sempre temos o orgulho de contar nossos perrengues e contamos as situações mais complicadas e penosas a risadas. Dá para entender?

Uma coisa é certa o perrengue é uma pegadinha do malandro do destino. O resultado é a surpresa e toda uma riqueza de emoções que fazem desse momento especial. (Não aconselho em uma situação de perrengue você falar pro seu companheiro que aquilo seja um momento especial.) Mas sim, o perrengue é um momento único e uma experiência muito acima da experiência comum e cotidiana.

Contudo não se ganha perrengues com irresponsabilidade. Planejamos tudo em nossas empreitadas para não acontecer dificuldades. Mesmo com isso o perrengue vai acontecer. E digo mais, perrengue interessante é aquele que dribla a lógica, assim como um atalho leva ao caminho mais distante.

Bons Perrengues!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Escalada e Santo Antônio

Eu e Bob na via "Era do Gelo".(foto: Victor Messias)

Às vezes, menor a chance de dar errado quanto menos planejamos. Neste espírito deixamos os detalhes de lado e só temos o puro desejo a nos guiar. E assim surgiu o fim de semana de escalada em Andradas, em um convite de última hora. Nem estava tão fácil para mim, eu tinha que trabalhar no sábado de manhã, mas nem por isso deixei de lado o desejo de escalar.
Subterfúgios a parte a viagem se deu. Me instalei na casa do meu amigo Ruberto Murteli(BOB). No sábado ficamos de boa curtindo a boa comida de Maria, a mãe de Bob, e a prosa de sua família em geral. A noite uma voltinha pela badalada praça da cidade com direito a uma cerveja extra para combinar com o frio.
Até aí tudo bem, mas para continuar a história tenho que ressaltar um assunto colocado pela Maria: a dificuldade extra em conseguir uma namorada sendo escalador. De fato, ao invés da balada do sábado fomos dormir cedo para a escalada do dia seguinte. E lá fui eu com dúvidas sobre minha sexualidade para a escalada... Será que eu gostava mais de montanha do que mulher? Será que para desgosto de minha família e meu estigma eu era um "montanasexual"?
Com essas reflexões fomos ao morro do elefante. O Bob contou uma lenda onde este morro tinha outro nome, algo sobre um diamante resgatado por ingleses em um tempo remoto. Mas não dá para escapar, o morro do elefante nasceu para ser chamado assim. Ele é um afloramento de rocha que tem o formato muito semelhante ao de um elefante, com o corpo ovalado, as orelhas arredondadas e é claro uma tromba. Ao invés de ficar aqui descrevendo dêem uma olhada na foto abaixo.

Era um elefante que virou pedra ou uma pedra que virou um elefante imóvel e atolado? (Foto: Francisco Gabas)

A trilha para se chegar até a base da rocha é dura por seu grande aclive. Passa-se por riachos e se sente muito medo dos bois que por ali se encontram. Teve um touro que se meteu a correr atrás da gente. Eu tendo a achar essas situações engraçadas, até mesmo no momento em que elas acontecem. Só sei que unimos os gritos(correndo) de "OOAAA,,,SAAAAI"....e o bicho desistiu de medo ou de perplexidade pelos gritos ridículos. Enfim de recuperadas de fôlego em recuperadas subimos até a base das vias.
Em torno do morro do elefante a cultura do Café.(Foto: Victor Messias)

O plano era o de subir o morro pela via Era do Gelo. A primeira enviada(trecho da via) foi feita pela via Vulcano, pois estávamos destituídos de equipamentos móveis e a primeira enfiada da Era do Gelo é toda utilizando esse tipo de equipamento. Deu para passar um certo veneno, principalmente no início da segunda enviada. Lance bem delicado e com risco de queda em um platô somado com o risco de queda em fator dois. Durante a via outros trechos venenosos pela alta exposição da via. Olhava pra baixo e pensava:" se eu cair tô f.....". A questão é que a via exige um pouco de equipamento móvel e por não tê-los a escalada acabou por ter esticões grandes.
Cume do morro do Elefante(Foto: Victor Messias)

Agora retomo o assunto suscitado pela mãe de Bob, talvez motivada pela pressão netinho, pois o morro do elefante estava cheia de flores laranjas, e resolvi dar corda a uma história. A flor em questão é a flor de santo antônio, o santo casamenteiro. Na era do gelo não tinha nenhuma flor, mas no cume tinha. Peguei uma para fazer a simpatia, pensando que a mandinga seria forte já que tive que escalar o morro para pegá-la. Não que eu acredite nessas coisas, mas a vida às vezes é tão sem sentido que não vi mal em dar algum sentido a uma coisa tão a primeira vista tola. A questão é que tem a simpatia de Santo Antônio para conseguir casar. Puts, eu estou bem de boa dessa, quero no máximo no máximo, uma namorada. Então fiquei sabendo de uma variação da simpatia que é a que se usa a flor para se ter dinheiro. Não pensei duas vezes e é essa que vou pesquisar agora na internet para fazer.
Mas vale também pedir pra Santo Antônio florir as montanhas com mulheres, afinal naquele dia a montanha estava só com flores de nome de homem mesmo.
Flor de Santo antônio

terça-feira, 13 de abril de 2010

Astronomia e as Montanhas


De posto para observação de tropas terrestres a observatório de galáxias distantes, das montanhas, lá de cima, de fato se observa melhor. Os montanhistas nesse sentido são privilegiados e qual deles nunca se pegou contemplando o incomparável "céu de montanha"? Palco de aventuras as montanhas também foram durante a história da ciência palco de descobertas astronômicas e astrofísicas, inclusive um brasileiro foi protagonista em uma dessas descobertas das alturas.

Nas montanhas existem fatores que contribuem para a qualidade das observações e o fator altitude sempre é levado em conta por astrônomos para a construção de novos observatórios. Foi assim na construção do Observatório do Pico dos Dias(1864m) de onde é possível ver a Pedra do Baú e também na construção dos observatórios do Complexo Alma no Chile(5060m) onde chega-se ao ponto de se necessitar de salas pressurizadas e oxigenadas para os técnicos e astrônomos acertarem a tabuada. Claro que a altitude não é o único critério para se escolher o local de observações, inclusive como podemos perceber no Complexo Alma a altitude pode ser um inconveniente.


Deserto e Montanha combinadas-Complexo Alma no Chile



Mas afinal, porque geralmente observamos um céu mais bonito em uma montanha?

O primeiro aspecto a ser dito é que geralmente regiões montanhosas são menos povoadas e por conseguinte estão menos sujeitas à ofuscação ou contaminação causada por fontes luminosas artificiais, principalmente as provindas de grandes cidades. O caso mais famoso de ofuscação que conhecemos, a do sol, explica o porque de não vermos as estrelas de dia. Como não podemos e não queremos apagar o sol existe a luta de organizações ligadas ao meio ambiente e à astronomia pela diminuição do que se chama poluição luminosa. Atualmente noventa e nove por cento dos europeus não conseguem observar a Via Láctea, incluindo os gregos que na antiguidade deram o nome à galáxia observando sua luminosidade.

Quantas estrelas você consegue contar em em uma metrópole?

Com o aumento da altitude aumenta-se a transparência do ar devido ao conhecido fato da rarefação do ar. Assim a luz proveniente de astros sofre menos com reflexões e desvios. Pelos mesmos motivos a umidade é algo indesejável. O ar umido é um meio mais denso e os fenômenos ópticos da reflexão e refração se dão com maior intensidade. O bom das montanhas é que geralmente em suas altitudes estamos acima das nuvens, assim os mares de nuvens que os montanhistas avistam nos cumes de montanhas além de belo é emblemático. As nuvens de umidade são mais pesadas e têm dificuldades em alcançar maiores altitudes, assim estas possuem grandes chances de ficarem abaixo dos observadores e acima dos mesmos, para contentamento de todos, somente um céu limpo. Nas ilhas Canárias temos excelentes observatórios que mesmo com a influência de ventos alísios (úmidos) tem um céu quase sempre limpo devido a altitude dos mesmos. Estando a uma grande altitude não é garantia que se tenha tempo limpo, o bom mesmo é que o local seja seco, por isso o deserto do Atacama tem recebido muitos empreendimentos do tipo.
Um fator menos evidente é que não adianta o tempo estar limpo e a atmosfera acima do local de observação ser muita turbulência. A turbulência gera mudança de densidade do ar cusando desvios aleatórios da luz. Um pouco desses desvios é facilmente corrigidos por métodos computacionais, porém esses efeitos são indesejados e levados em conta na qualificação do local de observação.
São vários os fatores que ajudam na qualidade da observação e as montanhas possuem vários desses fatores. E assim elas continuam tendo papel importante como laboratórios nas alturas revelando cada vez mais sobre astros, galáxias, buracos negros, sobre a existência de planetas extrasolares e sobre a energia e matéria escura. Enfim sobre os cosmos em geral sendo em si um universo de experiências para os montanhistas. Propiciando coisas que só ela pode oferecer.

Coisas que só a montanha pode te dar.


Dica para o observador das alturas: Não é aconselhável que logo de início se faça observações astronômicas com um telescópio. O ideal mesmo é começar fazendo observações a olho nú. O que é uma boa para os montanhistas que não estão afim de levar um telescópio na mochila. Então a dica é fazer observações utilizando um planisfério que irá propiciar a identificação de constelações e de pegar as manhãs da orientação astronômica. Para fazer um planisfério acesse o site
http://www.if.ufrgs.br/~fatima/planisferio/planisferio.html . Basta ter um impressora e um pouco de boa vontade para afzer o acabamento. Boas observações.