Por que existem países ricos e outros pobres? Por que alguns se desenvolveram e outros não? Responder a essas perguntas pode nos remeter a intricados estudos das ciências sociais e econômicas, mas na maioria das abordagens pode-se destacar o papel do conhecimento científico e tecnológico como central no desenvolvimento das nações. Esse papel é notável no passado e não poderia deixar de ser mais evidente e intenso no presente, com um cenário mundializado e de intenso uso da tecnologia e do conhecimento. No Brasil já se reconhece isso e alguns caminhos e desafios são apontados como imperativos para que o país possa acompanhar esse mundo e se desenvolver.
No livro “A riqueza e a Pobreza das Nações” de David S. Landers muito se argumenta sobre o papel do conhecimento como gerador de riqueza e competitividade desde a idade média. O autor mostra que se tornaram mais ricos os países que criaram um ambiente propício à criação e disseminação do conhecimento e a sua aplicação à produção.
O exemplo mais antigo remonta à idade das trevas que surpreende por seus avanços tecnológicos, e nesse sentido é injusto chamá-la assim. Nesse período, mais precisamente nos séculos X e XI, houve, na Europa, o aperfeiçoamento da roda d’água, já conhecida dos romanos, tendo sua eficiência melhorada e sendo adequada a um número maior de tarefas. O que antes era usado apenas para moer grãos agora também era usado na manufatura da lã e como força de trabalho para outras atividades. A Europa tornara-se uma civilização baseada na energia e pôde manufaturar várias atividades, inclusive a fabricação do papel, enquanto na China, a grande descobridora do papel, a fabricação continuou artesanal. Um outro invento também dessa época cujo impacto em termos sociais e econômicos foi surpreendente foi o óculos. Este possibilitou à Europa duplicar a sua força de trabalho simplesmente porque corrigia os problemas de visão dos artesãos que os atingiam principalmente em seu período mais produtivo. Assim esse invento prolongou o tempo útil desses trabalhadores e a capacidade produtiva da Europa. Posteriormente os avanços óticos possibilitaram ainda o desenvolvimento de instrumentos de precisão e mais para frente no desenvolvimento do telescópio e do microscópio.
Depois da Idade Média temos mais um caso notável: Portugal se tornara a nação mais poderosa do mundo. Como isso foi possível a um país tão pequeno e com uma população tão reduzida? A pergunta mudou, mas a resposta continua sendo o conhecimento e o caso português é mais um exemplo onde o mesmo foi a mola mestra para o desenvolvimento de uma nação. Portugal conseguiu esse destaque através de suas viagens comerciais, mas estas só foram possíveis com o estudo intenso do mar, dos ventos e da navegação. E desde o início estava claro para todos, burguesia e estado, o objetivo desses estudos: o lucrativo comércio com as Índias.
Da Idade Média até os tempos atuais são inesgotáveis os casos em que conhecimento foi sinônimo de desenvolvimento. Nesse percurso temos a introdução de dois novos e importantes agentes de produção de conhecimento a ciência moderna e, a partir da revolução industrial, a indústria. A primeira facilitou o avanço de idéias e descobertas pelo seu caráter de fazer socialmente. Já a indústria no séc. XVIII e XIX começou a investir em sua capacidade de inventar por reconhecer que isso era rentável e fundamental para o desenvolvimento das corporações.
Assim grandes laboratórios industriais de pesquisa foram criados na Alemanha, Inglaterra e nos Estados Unidos, e estes laboratórios são a base e os moldes para o desenvolvimento tecnológico atual. A partir da atividade desses a lei de patentes teve de ser desenvolvida nesse período tivemos a ascensão de grandes inventores como Tomás Edison e Graham Bell.
A história e a realidade dos países desenvolvidos mostram claramente o papel do conhecimento como central e também coloca a indústria como o principal ator de desenvolvimento tecnológico. Nesses dois pontos começamos por analisar o Brasil, país com uma industrialização recente, que possui uma realidade um pouco atípica e distorcida a essa realidade mundial e por isso tem grandes desafios na área.
No Brasil debates sobre o tema de ciência e tecnologia (C&T), pesquisa e desenvolvimento (P&D), e inovação ganharam espaço tendo em vista a necessidade de melhorar a competitividade das empresas nacionais. Mas essa importância ainda não se refletiu em aumento expressivo dos investimentos na área. A meta para 2010 seria de aumentar os investimentos para 2% do PIB, porém o que se alcançou foi 1,5%, percentual bem abaixo da média mundial de 2,4%.
Uma outra distorção clara da realidade brasileira em C&T é que o desenvolvimento tecnológico é baseado majoritariamente em dispêndios públicos e não privados, como ocorre nos países desenvolvidos. Estimular o aumento dos investimentos do setor privado é um dos maiores e mais importantes desafios da área. Tendo em vista o aumento da eficiência dos investimentos, transformando-os em tecnologias de mercado, aplicáveis à realidade. Geradoras de inovação e riquezas, e assim de um ciclo virtuoso de crescimento do PIB.
Outra evidência dessas distorções está exatamente no principal elemento criador de inovação, o cientista e o engenheiro. E nesse aspecto temos um espelho do que foi apresentado acima sobre a realidade brasileira em C&T. O Brasil possui um reduzido número de recursos humanos qualificados. Em 2001 o Brasil possuía cerca de 90 mil cientistas e engenheiros o que representava 0,14% da força de trabalho ativa. Os EUA e o Japão possuíam 0,75% e na Coréia do Sul 0,37%, ou seja, números bem maiores do que os brasileiros. A concentração dessa mão de obra, e por isso das atividades de P&D, é outro ponto que agora pode ser considerado natural. Assim temos a concentração desses profissionais sendo majoritária no ambiente acadêmico. Em 2001, 9 mil eram os cientistas e engenheiros atuando em P&D em empresas, enquanto que na Coréia do Sul que também é um país de industrialização recente, havia 75 mil cientistas e engenheiros na indústria.
O Brasil tem tido crescimento em outros indicadores tais como na produção científica e na formação de doutores, contudo o indicador de patentes produzidas no Brasil mostra uma situação bem menos favorável. O número de patentes do Brasil é inferior a várias ordens de grandeza em relação a países desenvolvidos. As empresas coreanas registraram 71 vezes mais patentes que o Brasil no ano de 2008. Essa situação é esperada quando se reconhece que a principal origem de patentes são empresas. Quando se fala então de patentes, está se falando da capacidade das empresas do país de criar e incorporar conhecimentos a produtos e processos e nisso o Brasil claramente tem que avançar.
Mas mesmo com todas as distorções o Brasil possui casos exemplares onde investimentos em P&D feitas por empresas transformaram C&T em riqueza e desenvolvimento. É o caso da Embrapa que foi a grande responsável pela pujança do agronegócio brasileiro. Seus cientistas descobriram o caminho que aumentaram a produção da soja em 25 vezes em um período de 25 anos e isto para uma lavoura considerada inicialmente inadequada ao clima tropical. Com isso o país se tornou o segundo maior produtor de soja e fatura bilhões de dólares. Outro caso de sucesso foi o da Embraer que transformou investimentos em educação, com a formação de mão de obra altamente qualificada no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) em aviões. Este produto é um dos principais produtos exportados pelo Brasil e com o faturamento da empresa até o momento se manteria um ITA por mais de 1000 anos.
Esses dois casos são exemplares ao explicitarem que investir em C&T, ensino superior e P&D em empresas é altamente rentável para empresas e governo.
Nos últimos 10 anos o Brasil tem obtido conquistas, tendo cada vez mais empresas com razoável capacidade tecnológica. O país tem desenvolvido estratégias para o desenvolvimento e os instrumentos criados a partir da lei de inovação, somados à base acadêmica e industrial criada nos últimos 60 anos, permitem olharmos o futuro com otimismo, como diz o diretor científico da Fapesp (Fundação de Ampararo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Carlos Henrique Brito Cruz. Ele destaca também que o grande desafio do Brasil é o de avançar mais depressa no objetivo de contribuir para que as empresas, no Brasil, tenham as condições para promover seu próprio progresso tecnológico.
A competitividade das empresas depende de uma dinâmica de inovação que é propiciada somente por P&D. A inovação é capaz de criar novos produtos e mercados, aumentar a qualidade de produtos e melhorar os processos de produção com produtos melhores e mais baratos. Naturalmente então uma empresa inovadora é competitiva, pois ocupa novos mercado de maneira sólida. E o mercado atual como já dito é veloz. O que hoje é novidade no ano seguinte é um tecnossauro (tecnologia que caiu em desuso) extinto.
Para se desenvolver no cenário atual C&T é a base para se alcançar competitividade, riqueza e desenvolvimento. É condição também para que esse desenvolvimento possa se dar de maneira sustentável ambientalmente e socialmente. O Brasil tem possibilidades enormes para se desenvolver. Há muito que fazer, como desenvolver o ensino superior e melhorar o P&D em empresas. Mas, certamente é um esforço que vale a pena, ou para usar o vocabulário típico do texto, é certamente um caminho rentável em vários sentidos.
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